Decidi escrever de novo. Mas, quando escrevo, não é por vontade própria minha, e sim da própria escrita.
Estive pensando sobre ter gostos que diferem muito entre si. Eu tenho. Ou eles me têm, deve ser mais para isso do que para aquilo. Vou encher o restante deste texto com exemplos pessoais. Caso quem me lê não esteja disposto a me ler exemplificada, qualquer dia escrevo algo menos pessoal e o reconquisto.
O fato é que tenho interesses que “a maioria” consideraria múltiplos demais para fazerem sentido. Quando criança, fui fotografada rabiscando um pedaço de papel com uma caneta. Ali estava uma garotinha meiga, de cabelo castanho-claro, com franjinha reta e cachinhos, diante da imensidão de uns rabiscos à caneta. Toda vez que meus pais, tios ou avós olham para a foto, dizem: “desde pequena, já queria ser escritora”. Não sei exatamente onde está o sentido da ligação entre uma coisa e outra (poderia ser desenhista, ué), mas… é verdade.
Minha mãe conta que, também quando criança, certa vez rabisquei todos os papeis que estavam sobre a mesa do chefe dela, jornalista. E que, em vez de uma bronca, ela ouviu uma frase: “vai ser jornalista”. E também é verdade. Estou estudando para isso, embora ache que, por tudo que tenho visto em teoria e prática, “ser jornalista” é mais um instinto do que qualquer outra coisa que venha dentro de um canudo. “Decida-se”, parte 1.
Aí eu fui crescendo. Quando minha deliciosa rotina era escola-casa-da-vó, antes mesmo de cursar o Primário, eu era a fiel audiência das novelas mexicanas em qualquer horário em que fossem transmitidas. Ficava imitando as atrizes frente ao espelho. Com batom e “roupa de adulto”, que pegava de guardarroupas [hífen é da minha época, estou envelhecendo] alheios. Achava que queria, além de escrever, ser atriz. “Decida-se”, parte 2.
Acrescente a isso mais alguns anos e lá estou, em qualquer lugar da casa de praia dos avós, tentando imitar à mão as páginas de revistas de novela. Eu parecia querer engolir a fonte Times New Roman. Desculpem não conseguir explicar isso direito, mas eu achava o “a” do tipo tão impressionante que tentava desenhar à caneta numa folha sulfite. Imitava tudo da página: o título (“fulano e fulana têm noite de amor”)em um tipo como Arial Black; o que vinha depois dele (na fase adulta descobri que se chama “olho”, que curioso), o que vinha depois-depois (ah, ta, o texto mesmo) e até me arriscava a desenhar as fotos. Tudo com uma régua e uma caneta esferográfica. Minha avó tem isso guardado.
Pouco depois, desisti de copiar, queria um desafio maior. Passei a brincar de “inventar novela”. “Fulano e fulana se beijam” podia ter o nome que eu determinasse. Era fascinante; Colombo deve ter sentido algo parecido. E eles podiam se beijar e em seguida, “romper” (revista de novela adora o termo). Mágico! Inventei várias tramas, com nomes e tudo. Tentava seguir um roteiro. Escrevia o “resumo da semana” baseado no que via nas revistas. Mas depois me cansava e guardava as folhas numa caixa. A história do casal, depois de uma reatar-brigar-reatar-ficar-junto-para-sempre já não tinha mais graça depois do “para sempre”. Cresci um pouco mais e deixei tudo isso lá na caixa, no quartinho onde está até hoje. “Decida-se”, parte 3.
No colégio, felizmente, havia matérias que detestava. Digo felizmente porque… ora, porque é o raciocínio principal deste texto mas não sei explicar, só sei continuar escrevendo. Detestava Matemática. E Arte, que eu me lembre. Era “Educação Artística” (e não ainda minha amada História da Arte) e eu tinha pavor só de pensar em desenhar. Tinha/tenho um traço grotesco e minha coordenação motora nunca foi das melhores, nem das quase-boas (meus companheiros de classe sabem que não consigo conversar e escrever ao mesmo tempo, por exemplo). E não sabia pintar a lápis porque começava num sentido e terminava noutro. A Matemática me embrulhava o estômago. Acho que embrulha e embrulhará, só tive uma pausa no enjôo matemático quando uma professora magnífica no último ano do ensino médio fez valer a pena. Mas é exatamente este o ponto: nas matérias da escola a coisa começou a complicar. Detestar Matemática e amar Português com todas as forças é muito natural, é a velha briga Exatas x Humanas. Mas quando descobri que gostava de Química, fiquei desolada. Achei que fosse só no colégio, e até aí, tudo bem. Mas comecei a fazer cursinho e gostei mais ainda de Química. “Decida-se”, parte 4.
Chega a fase “decida-se” um pouco mais decisiva, permita a redundância. Nos vestibulares, só prestei (nunca sei se é “prestei” ou “prestei para”) Jornalismo. Cheguei a pensar em Letras e fiquei feliz quando descobri que a dúvida é tão comum que uns cinco na minha sala devem cursar Letras também. Preciso explicar aqui que em momento algum “tive dúvida”, e essa é a parte do raciocínio que nem eu entendo. Não tenho dúvidas sobre o que quero. O fato é que quero tudo o que estou dizendo que quero, e as imposições que o homem criou como auto-punição devem ser o motivo central deste texto, que se pergunta a cada caractere qual o problema em não querer uma coisa só.
Com o curso de Jornalismo, vem a sexta parte “decida-se”: a Sociologia. Minhas matérias favoritas eram Sociologia e Teoria da Comunicação, e até entender o parentesco, entristeci um pouco. Essa foi a única parte em que talvez tenha surgido uma duvidazinha. Quis largar tudo e correr para as Ciências Sociais. Depois, fui me acalmando até descobrir que TODAS as matérias do curso de Jornalismo me agradaram tanto até o momento que não tem como largar. Perto disso, comecei a estagiar. Tive a oportunidade de trabalhar com assessoria de imprensa, meu primeiro estágio. Houve momentos em que (se meus ex-eternos chefes assessores estiverem lendo isso, acho que nunca antes havia contado…)gostei tanto que cheguei a pensar: “quando eu crescer, vou ser assessora de imprensa como eles”. Mas quando discutíamos “o outro lado” (que alguns nos irritam quando dizem ERRONEAMENTE que são “os jornalistas”), queria fazer parte dele também. A coisa complicou. “Decida-se”, parte 7.
Meu segundo estágio foi com redes sociais. Descobri uma profissão chamada “Análise de Mídias Sociais”. Eu me casei com ela, ouvi que “tá pegando”, então ela “me pegou”. O casamento tem sido como diz o clichê, mesmo. No começo foi uma maravilha, só queria falar em mídia social. Meu wikivocabulário ganhou palavras. Agora, está numa fase parada, porque o exército dos que não sabem arranjar outra explicação me ensinou a dizer: “estou sem tempo”. Mas estou feliz com o casamento, embora as redes sejam infieis. É relacionamento aberto, mesmo. “Decida-se”, parte 8.
Agora, o ápice. Telejornalismo. O terceiro estágio. Qual a diferença? A diferença é que parece um espelho (que, aliás, é vocabulário “televisivo”). Só eu sei que dizer isso é mais do que suficiente. A diferença é que antes não havia me olhado no espelho. “Decida-se”, parte 9.
Na tevê, uma observação interessante me chamou a atenção para mim mesma (não é redundância, leiam de novo): um colega vive dizendo que eu tenho cara e jeito de psicóloga. Diz que passo confiança, que são meus olhos e meu jeito de conversar e ouvir. O mais interessante é que com frequência pessoas puxam conversa comigo na rua, mas não simplesmente isso. Certa vez, há uns sete anos, estava esperando o ônibus da escola (aumenta o som de “Malandragem”) e uma senhora começou a conversar comigo. Minutos depois me disse que tinha acabado de sacar algo em torno de dez mil reais do banco ao lado e que o dinheiro estava na bolsa dela (não me perguntem por que). Se isso não for uma prova de que devo passar alguma confiança, não sei mais o que é. “Decida-se”, parte 10.
Acho o número dez simpático (o estranho é que acho o “um” antipático), então, vou parar a contagem por aqui. Isso porque ficaria contando eternamente as contradições em que eu mesma me coloco. Mas preciso fazer duas colocações importantes. Duas vontades me acompanharam, acompanham-me e me acompanharão. Seja como queiram chamar: vontades, sonhos, aspirações, objetivos. O fato é que escrever e ser professora simplesmente não têm definição no meu dicionário, no dicionário que criei pra eu me entender (em vão). Quando uma coisa transcende, perde a definição. Mas não perde o referencial, que fique claro. Eu não estou supondo porque é o que acontece comigo, e se estou falando de mim, não haveria motivos para supor. Escrever me transcende, ensinar me reposiciona. Dar aula, ainda que particular, é mais que uma conquista. É aquele desafio que resolve todos os problemas das contradições que coloquei aqui. Eu posso gostar de uma porção de disparidades, porque enquanto puder professá-las, enquanto puder ensinar, estarei livre das amarras. Posso ser professora de tudo que gosto. No momento dou aula particular, de Inglês. E uma vez minha aluna me disse algo que, ela não sabe, mas dá um pouco de sentido a esse texto sem querer. Ela me disse que eu tinha ambições e que, por isso, eu não me limitava a uma atividade só. Segundo ela (uma moça determinada de vinte e sete anos), isso é muito bom. Vá saber. Fico com a dúvida, porque a dúvida, enquanto dúvida, não vai me trair.
Além do que escrevi aqui, tem aquela máxima com a qual me identifico, apesar de preferir as mínimas: “posso não saber do que gosto, mas sei do que eu não gosto”. Pensando melhor… não faz sentido algum! O que não se gosta deve ser conhecido antes do que se gosta. Só assim a gente sabe do que gosta. Mas e se eu souber tanto do que gosto como do que não gosto e gostar de várias coisas? Cheguei onde queria neste texto, mas ainda há muito nesta vida. Voltemos ao texto.
Às vezes não sei preferir, confesso. Mas não sou indecisa: disso tenho certeza. Se você que leu até aqui acha que agora sim vai endoidar de vez, não se preocupe: a contradição sou eu. Se eu fizer sentido deixo de fazer sentido.
Dançar, para mim, é sagrado e segredo, meio revelado. Mas já subi num palco cantando rock’n'roll mais de uma vez. Quando eu canto qualquer ritmo que seja capaz de ritmar minha alma, eu me reconheço de alguma forma. Acompanhe no violão, mas seja paciente se eu não quiser parar. Sim: também já quis viver de música. Mas eu já vivo de música. Pense no verbo “viver” e no substantivo “música”, una-os e entenderá.
“Eu só estou feliz quando chove/ eu só estou feliz quando é complicado”, diz uma música de que gosto muito. Seja qual for nossa maior disparidade, sempre temos uma essência e sempre sabemos qual é. Eu não quero falar da minha, porque nossa essência é a coisa mais pessoal que temos e é daqueles segredos que não podem ser revelados ainda que já tenham sido.
Ficam aqui algumas indagações. Qual o sentido da especialização? Acadêmicos, fiquem onde estão: não estou falando disso. Por que temos que ser um, uma, assim ou assado? Por que não podemos ficar em cima do muro se pudermos avistar o mar de cima dele? Por que temos que “por um ponto” se existem reticências?
Concluo, mas deve ser essa minha maior contradição: JAMAIS querer finalizar. Sou eterna enquanto dure a minha escrita.
Marcela Marcos
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