Nuas Nuances

Blog reticente, ponto final.

27 Abril 2012 Comentários

Flâneurisma

     Eis que, para a aula de Técnica de Redação na faculdade, o professor nos pediu para escrever uma crônica para um exercício intitulado “o que eu vejo”. Estamos estudando um conceito bem bacana, o  flâneur , identificado com o ato de andar observando tudo à volta (mas não é isso simplesmente. É infinitamente mais). “O jornalista faz muito isso”. Finalmente percebi que estou na profissão certa, se assim for. Então usei minhas observações semanais em terreiros de Umbanda, assunto que pesquiso desde o ano passado, para tentar este exercício. A descrição que segue é de um desses, o “GRUEL – Grupo Umbanda é Luz”, que fica no bairro da Vila Maria, zona norte de São Paulo, onde vou pelo menos um sábado por mês. Como os responsáveis pela administração do local já sabem que estou ali para a pesquisa de campo do TCC, separam um banquinho num canto onde posso ver toda a gira e, de alguma maneira, estar em contato com ela. No sábado em questão, cheguei a ficar mais de seis horas – da “fila” (que começa na rua) até o final da sessão – apenas observando. Não me canso…

                                             *

Tocando Coisas de Amor

     Rêêêaaamarauê! Lamento. Lamento profundamente que palavras sejam tão escassas quando tentamos descrever um som. Neste caso, qualquer palavra seria incapaz de descrever. Tentei. Mas só de tê-la ouvido, essa palavra, esse grito que cala a alma percebi que fracassei. O caboclo incorporado a alguns passos de mim brada, e se naquele momento o velho questionário “qual poder você gostaria de ter?” viesse à tona, responderia com pressa: o poder de calar ao restante do mundo.

     Mas, agora que refleti um pouco, assim como “refletiu a luz divina em todo seu esplendor” naquele terreiro, dei-me conta de que, não, o restante do mundo não pode se calar! Espero que haja perdão para o que desejei: é que, silenciando os demais, como eu poderia ouvir o brado dos outros caboclos? O estalar de dedos sobre a cabeça da criança que, olhos curiosos percorrendo os meus, veio tomar passe? O preto-velho-eterno-menino aconselhar que tenhamos “fé no pai Ossalá”? A risada faceira da pomba-gira que atende a meu lado? Não: se os praticantes da magia ensinam que tomemos cuidado com o que desejamos, pois podemos ser atendidos, não mais desejo coisa alguma.

     Aliás, será que eu posso desejar só  uma coisinha? Se a resposta desse leitor for sim, digo já, para que meu dizer não atrapalhe o falar deles, digo que retiro o que disse antes, por completo. Porque quero agora que todos tenham(os) voz para com ela transmitir as mensagens de Aruanda, de onde, diz a música, vem o cavaleiro com seu chapeu de banda. É da banda do Um que falo, digo: Umbanda.

     E agora que as emoções me permitiram recompor as ideias – o que não minimiza o impacto das lembranças perfumadas, defumadas – dou graças por enxergar, com a nitidez que a razão me impõe, tudo o que gira-e-vive à minha volta. Sentada sobre o mesmo banquinho que usam os pretos para “trabalhar”, ou seja, sobre o assento dos médiuns que os “recebem”, percebo que, neste plano, trabalhar e receber são grandezas diretamente proporcionais. O preto, escravizado pela ignorância do mesmo que se julgou outro, que se julgou mais, não tem corrente de ferro, ele é parte integrante de uma corrente que com ferro só se assemelha à primeira sílaba, ele é fé. E em forma de fé ele “baixa” num corpo que o ergue, à esfera da caridade para a qual ele vem trabalhar. Receber? Preto-velho não recebe: ganha fé de volta.

     E agora, ainda agora, aprisionada no instante de um dedo indicador apontado às costas, mãos para trás, depois para o alto e avante, flechando o tempo, perdi-me no raciocínio anterior: é que a imagem do caboclo à minha frente, brasilidade esquecida dos brasis por aí, queima em brasa na memória. Okê, é sua saudação. O que fizeram de suas matas? Incendeia.

     E agora, porque não posso deixar para depois, agora a risada dessa mulher de olhar altivo, mãos na cintura em contínuos requebros me atinge em cheio: ela está fisicamente atrás de mim, mas, ao que me consta, sempre espiritualmente à frente. Ela, marginalizada, sincretizada com o demônio como prefere o intelecto, vermelha, aconselha. Eu, apenas uma observadora num cantinho em meio aos quatro cantos, quatro elementos, ouço atenta. O conselho não é para mim, mas serviria. Porque o que uma vez é dito por uma pomba-gira reverbera no tempo. De novo, o tempo, fugaz que é, esvai-se e vai-se embora. E ficam apenas as lembranças, cantadas, tocadas no atabaque, benzidas, cruzadas, riscadas: fica apenas este exercício de descrição de quem vai sempre perambular pelas filas das sete porteiras dos templos de Umbanda paulistas, quando muito tendo a sorte de encontrar um-bandista amigo que me ofereça o banquinho para sentar e só observar, como diz outra canção.

     E fica, além da lembrança, um juramento emocionado de quem pecou por se emocionar. Pecou porque os ossos frios do ofício – jornalístico – exigem frieza de volta. Pecou, porque… ora, mas o que estou dizendo? Se não há pecado nessa religião. Se não há erro fatal, porque, se for fatal, que mate para nos terreiros renascer um acerto. Se não há décima parte, sendo todos parte da banda do Um. Se não há juras. Mas quero jurar. E aí já se foram muitos desejos desde que comecei a contextualizar este juramento. Juro que andarei, flanarei – palavra que aprendi – por todos os lugares pra ver essa Banda passar, tocando coisas de amor.

17 Março 2012 Comentários

O Celular e a Bíblia: desabafo de uma pretensa jornalista

   Eu devo ser um paradoxo ridículo. Tenho tanto fascínio pela metrópole quanto por vastos pastos.

   Desde que voltei do interior, para onde viajei em férias e onde mora grande parte de minha família materna, numa cidadezinha de cerca de cinco mil habitantes (chutando alto) chamada Boraceia (NÃO a praia) próxima a Bauru e Jaú, para citar as maiores, esse parágrafo ficou muito grande e não consegui concluir o raciocínio. Então, desde que retornei do interior venho “ensaiando” (mas isso não é um ensaio, disseram-me ser um post) escrever sobre tudo o que sempre sinto quando lá estou.

   Minhas famílias do interior, Bueno e Giraldi são simples, e não estou dizendo isso pra vencer reality show porque de fato é um dos motivos de maior orgulho pessoal. E, se me orgulho, é porque minha bisavó (92 anos e contando), meus avós, tios e primos me ensinam valores da vida no campo que se aproximam muito mais do que eu entendo por VIDA do que o que se entende por vida aqui, nessa megalópole chamada São Paulo que, aliás, eu tanto amo. E muitos deles trabalharam na roça sim, senhor. E me lembram disso quando eu reclamo de qualquer coisa, porque pouca coisa deve ser pior do que trabalhar exaustivamente debaixo de um sol que tenta torrar a dignidade, para ganhar centavos no fim do dia. Não dá pra listar tudo o que aprendo a cada viagem, porque esse “tudo” não cabe em forma. Mas vou selecionar o que eu vivi de mais bonito e significativo na última visita à família, e que, espero, toque o coração de quem me lê.

   O que mais gosto de fazer quando estou em Boraceia é ouvir os violeiros. Passo horas ouvindo “modão de viola” tocado pelo tio (a quem eu peço saltitando que toque e cante minha favorita, “Franguinho na Panela”) ou qualquer outra dupla, e meu avô, orgulhoso desse hábito no mínimo incomum para a minha idade, abre aquele sorriso e tenta me mostrar mais músicas e duplas. Todo domingo pela manhã é sagrado (e vocês vão entender abaixo por que não usei essa palavra em vão) assistir à TV Aparecida ou o programa da Inezita Barroso, “Viola, Minha Viola”. Eis que, numa dessas zapeadas de controle remoto, parei, olhos marejados fixos na tela e ouvidos atentos. A dupla Goiano & Paraense apresentou uma música de curioso nome: “O Celular e a Bíblia”. A mensagem da canção é tratar a Bíblia Sagrada da maneira como tratamos o telefone celular.

   Eu não posso dizer por que a letra me emocionou pessoalmente, porque sou uma pretensa jornalista e os jornalistas, pelo que fiquei sabendo, não podem revelar posicionamento religioso, político, etc e tal. Mas, agora devidamente maquiada com a Ética, posso afirmar o seguinte: letra e melodia, simples como são, trazem à tona um apelo à aproximação com o Sagrado imerso nessa pós-modernidade-em-andamento. E ainda dizem, ah, ainda dizem que “caipira” é atrasado. Quero mais o atraso! Mas não posso dizer, porque quero ser jornalista.

15 Janeiro 2012 Comentários

Entre Espelhos e Quadros

Boa noite! Linda noite: chove lá fora. E como é que pode alguém achar a chuva tão linda sabendo das devastações que ela traz? Tantas são as vidas que, em meio às tragédias que costumeiramente assolam os inícios de ano. Pois assim somos nós, os seres humanos. Temos uma enxurrada de coisas a aprender, e outras sobre as quais precisamos simplesmente refletir em nossas vidas. Nossa conduta diante das situações talvez seja a principal delas.

Não só as tempestades são sinônimos de tragédia, assim como não só tragédia trazem as gotas de chuva que caem sobre nossas cabeças. Já me criticaram muitas vezes por “metaforizar” demais, mas assim faço porque assim penso decifrar, aos poucos, o mundo em que vivo e no qual não vivo sozinha. Há, é claro e infelizmente os deslizamentos de terra, mas há igualmente as secas. Por que apreciar apenas o que é cômodo? Acomodar-se? É, para mim, verbo a ver com “acovardar-se”.

Estive pensando sobre a frase popular “quem vive de passado é museu”. Quem me conhece, conhece também minha profunda admiração, quase visceral pelo que é antigo. Tenho verdadeira tara pelo cheiro de mofo dos livros; pequenas peças de anos, séculos atrás; vestimentas, grafias, hieroglifos, pessoas também seculares (ou quase). Mas há aí algo que muito provavelmente ninguém entendeu a meu respeito, e que, creio, sirva como um reflexo das situações que enfrentamos na vida. Existe uma diferença escabrosa, que de tão diferente quase não restou nada em comum entre admirar o passado e vivê-lo. Não se “vive o” passado. Vive-se “de” passado, sim, mas porque se quer. Eis o mais fascinante da vida, talvez. 

Eu admiro os anos 1950 não como quem gostaria de tê-lo vivido, mas simplesmente como quem admira uma pintura: não quero estar na pintura porque sei que não seria possível, e admiro essa impossibilidade. Admiro o que sei que não tem volta. É tudo estático como em um museu. Tudo está silenciosamente lá e eu não quero pertencer, quero apenas observar porque me encanta não poder voltar atrás. Falando com mais “realismo”, é simples: amo as situações boas pelas quais passei, os bons momentos que tive com as boas pessoas que conheci. Mas se por algum motivo “o tempo passou” como uma nuvem pesada de chuva sobre essas situações, esses momentos, essas pessoas é sinal de que vem tempestade para levar, lavar o que passou. E é aí que desejo o sol, com mais gana, para que um novo dia ilumine esse quadro na parede e aprisione ali meu passado, permitindo que eu o observe com saudade, mas só. Há situações, momentos, pessoas que permanecem conosco, vivas, não quadros, mas espelhos. Eu agradeço por quem viveu comigo e comigo segue. Eu agradeço a quem, tendo PASSADO por mim, é ainda meu presente-espelho. Que um quadro a gente olha e admira, mas no espelho a gente olha o que é verdade. E nem sempre a verdade se admira.


30 Dezembro 2011 Comentários

2012: Em Vias de Fé

  Boa tarde! Passa das sete da noite, mas está claro lá fora: ah esse céu de verão! A convenção mandaria dizer “boa noite”, mas nem sempre ser convencional é o correto. E o que é o correto? É tão visceralmente pessoal, que não adianta tentar discorrer a respeito. Mas o ser humano com sua capacidade ímpar conseguiu limitar “o correto” a uma convenção universal, daí temos que nos formatar a ela. E em uma fração de segundos tornamo-nos coisa-formatada, (qualquer) coisa. Só pra ser convencional, (politicamente) correto.

  Passei a pensar sobre o tal “correto”, mais ainda, nesses últimos suspiros de 2011. Vinha mesmo precisando alimentar essa necessidade, quase natural como respirar e comer, de colocar umas palavrinhas ano-novas no papel, ops… na tela. E de repente me vi voltando para casa numa tarde toda corretinha de verão, assim “dentro dos conformes” veraneios: ensolarada. Como por uma dádiva, tinha horas de ócio pela frente (o que, nesse 2011 que me acena levemente, foi raríssimo). Decidi, então, mudar o caminho, tentar “desbravar” outras ruas, outras rotas que me levassem para o mesmo destino. E como não fiz “o correto”, acabei me perdendo. Até achar o caminho de volta, levei o dobro do tempo que levaria fazendo-o-correto. Ao mesmo tempo, dei um grito de liberdade, pensei: agora conheço outro caminho, e posso dizer se é bom ou ruim. É como provar um alimento a despeito da opinião de quem já o comeu antes. É a velha história de não julgar sem saber. Quando criança quantas vezes fiz cara feia para algo que não conhecia, só pela aparência, e não me dava a chance de provar! Daí volto a falar sobre fé.

  Eis uma palavrinha (“inha” porque é pequena, mesmo. Jamais seria “inha” pejorativa, diminutiva de sua imensidão semântica) que me toma por completo. Uma sílaba, Deus meu, uma única sílaba! E um turbilhão ao escrever, soletrar, pronunciar, afirmar, atestar. Falo sobre fé porque essa palavra ficou por muito tempo trancafiada dentro de mim, e eu não encontrava a chave para libertá-la, chave essa que também esteve, o tempo inteiro, em meu interior. É que, seguindo o velho hábito de pré-julgar, nem ao menos procurava. Poderia definir de muitas formas a fé, mas esse vocábulo arretado é tão pessoal quanto “o correto”. Farei melhor: tentarei traçar um paralelo entre a fé e o correto. Vejamos se consigo!

  Quando se tem fé, andar por caminhos tortuosos deixa de ser um risco e se torna uma escolha possível. Uma escolha que, de todo modo, será correta: porque há a fé. O incorreto é infiel.

  Que em 2012 seus caminhos, leitor, estejam abertos para que você possa trilhar com fé qualquer via íngreme. Encruzilhadas haverá muitas, e que bom! Eu vou me ajoelhar nelas e agradecer por existirem em meu caminho!

  Feliz Ano Novo! 

17 Agosto 2011 1 Comentário

S(ab)er Disposto

   (Nem) sempre há uma razão para escrevermos. Em meu caso, digo que sou muito espirituosa (vejam, eu não escrevi “religiosa”) e quem convive comigo estranhamente acaba se acostumando. De ontem para hoje, não dormi. Passei a noite formatando um capítulo de uma pesquisa que desenvolvo junto à Faculdade Cásper Líbero onde estudo, mas não digo que foi esse o motivo da insônia. Embora estivesse à base de muita, muita cafeína passei a me atrair por cada coisa que lia na madrugada e quando me dei conta, já havia amanhecido. O curioso – e por isso achei pertinente escrever – é que estou com a disposição que não tinha (nessa magnitude) havia meses! E uma breve conversa com a fonoaudióloga pela manhã me despertou para a vida, mais uma vez, embora eu hoje não tenha despertado literalmente, já que não dormi.

   Falávamos sobre a disposição que é preciso ter hoje em dia (digo isso porque ela, que deve ter em torno de cinquenta anos comparou o momento em que vivemos com quando ela tinha a minha idade) para conquistar um “lugar ao sol”. Comentei que faço muitas coisas ao mesmo tempo e que sou muito feliz por ter saúde e vontade deAmiza seguir em frente, ao que ela me contou sobre uma senhora de setenta anos (não foi exagero, não) que estudou na classe do marido dela na faculdade de Direito, há mais de vinte anos. A senhora havia ficado viúva, tinha filhos “moços” e plena consciência de que sua formação não a levaria para o mercado de trabalho, e mesmo assim continuava o curso porque dizia: “quando eu era moça meu pai não me deixava estudar. Casei, tive filhos e meu marido jamais deixaria. Agora meus filhos são moços e eu, livre. Sei que não vou exercer a profissão, mas estou na faculdade para aprender, mesmo”. Lição de vida que devemos fazer com capricho para ganhar parabéns no caderno!

   Por sorte, destino ou ambos fiz uma valiosa amizade na faculdade; trata-se da Maria del Carmen, que carinhosamente chamo Carmencita e que já é mestre em História, leciona na rede pública mas está cursando Jornalismo, e em minha turma. Uruguaia com a alma mais brasileira que possa haver, Carmencita é um exemplo e a cada trabalho que desenvolvo junto dela (que é casada e tem “filhos moços”) sinto mais vontade de estudar.

   Isso tudo também me trouxe à memória meu avô materno, que hoje leva uma vida simples no interior mas tem valores caríssimos. Minha mãe sempre conta que ele estudou na classe de minha tia e que se orgulhava muito de frequentar a escola, mesmo “depois de velho”. Infelizmente não tenho visto muito isso ultimamente por onde passo, pra não dizer que tenho visto mesmo o contrário.  Por nenhuma coincidência li um post lindíssimo no blog da querida Andrea Destefani que tem muito a ver com o que quero deixar nas entrelinhas, com espaço, deste espaço.

2 Agosto 2011 1 Comentário

Vitória Fúnebre

Passei dias pensando em escrever sobre uma frase que li e que instantaneamente me inspirou. Mas, com os afazeres todos, as horas todas de sono e a aridez de ideias que se pudessem “conectar” entre si (estamos em rede, não poderia ser diferente) me impediram. Tentei, sem sucesso – mas talvez porque tenha tentado tão pouco – achar uma epígrafe para o post (podem rir, vale uma boa gargalhada), algo como Machado de Assis que fala sobre tudo, sobretudo do tema que queria tratar aqui. No fim – ou seja, agora, que me pus a escrever de um jeito ou de outro – percebi que não precisamos de frases de outros para ilustrar o que nós queremos dizer. Evidentemente acontece o contrário na Academia, mas não é disso que estou falando, então posso prosseguir.

Na semana passada vinha para o trabalho quando li, no muro do Cemitério da Consolação, a seguinte frase: “eu venci a morte!”. A ironia já está bem clara, mas o que está escuro é que me intriga de verdade. Fiquei pensando sobre as razões que levam uma pessoa a pichar um “desabafo” (ou seria uma brincadeira de pichador sem os talentos de um grafiteiro?) como esse no muro de um cemitério, onde tantas tristezas estão sepultadas silenciosamente, bem ao contrário do grito de quem venceu a morte, ponto de exclamação.

(mais) Ironicamente (ainda), dias antes morrera a cantora Amy Winehouse, de “causa desconhecida”. A única coisa de que eu realmente gostava nela eram os cintos que apertavam a cintura, e confesso que achei a morte de Amy um clichê à parte na história da música. Mas, como a frase e a morte vieram quase no mesmo momento, não pude deixar de relacioná-las. Acho mesmo que o ser humano está se tornando mais complexo a cada dia que passa, mas é uma complexidade banal e por isso mesmo, paradoxal. E quem sou eu para falar do ser humano? Um ser humano, creio.

A mídia, essa da qual decidi fazer parte quando prestei vestibular desempenha um papel quase asqueroso nas mortes em geral. A única coisa que consigo concluir é que a mídia é clichê porque assim são as pessoas que precisam dela. Morreu uma celebridade! Morreu, mas nas capas de revista continua vivinha, com algumas diferenças com relação ao ângulo, à pose e à legenda da foto-manchete. Certa vez me disseram que eu seria uma boa jornalista exatamente porque não tinha o perfil de um jornalista. A justificativa? Eu era sensível demais para a profissão.

O fato é que, antes de morrer uma celebridade, morre uma pessoa que provavelmente tinha sentimentos como todos nós temos, embora não queiramos demonstrar. Pouco me importa se Amy Winehouse é um exemplo do que estou falando, mas, agora falando do muro pichado, do outro lado dele jazem seres humanos, portanto se você pichador “venceu a morte” (por enquanto…), respeite ao menos quem não teve essa vitória. E se pra encerrar é legal ser clichê mesmo, vou falar do fim do mundo que é um assuntinho em voga: o mundo já acabou, mas (in)felizmente não nos demos conta.

14 Abril 2011 Comentários

Por aí, aqui

Meia-noite e dois, descobri que havia perdido o ônibus no ponto usual próximo do metrô e que, por isso, teria que andar alguns minutos até chegar a um ponto “alternativo” (nem tanto, já que não tinha opção) de uma avenida que começava a adormecer. Não fazia frio, eu não estava com fome, mas há quem diga que é um perigo uma jovem andar por aí na madrugada sozinha. Esqueceram de avisar esse “quem diga” que a jovem em questão é amante da madrugada. Também esqueceram de perguntar: mas quem está sozinha, afinal, a jovem ou a madrugada? Nenhuma delas.

Há seres que vivem no “por aí” e talvez nem saibam aonde vão. Muitos deles não sabem sequer onde estão. Eis que, na madrugada, na avenida, no suposto perigo a jovem-eu encontrou um ser do “por aí” que não era, propriamente, humano – mas era amigo. De repente um cão era “a única coisa” que me fazia companhia enquanto eu me dirigia ao ponto de ônibus solitário da avenida. Quando o percebi, quis fazer uma brincadeira. Pensei: “será que eu consigo me comunicar com ele pelo pensamento? Seria o máximo! Vou tentar! Vem, amigão, pode me seguir”. Pensei. E só pensei. Nesse meio-pensado-ainda-não-dito, o cão começou a correr atrás de mim como se fosse ganhar um prêmio de chegada. O pensamento é realmente fascinante. A comunicação seria fascinante, também… se os homens não tivessem tentado racionalizá-la.

O cão correu, eu andei devagar. Divaguei. Parei no ponto de ônibus. A avenida pegara no sono. Dormia, já. Mas São Paulo não para, não dorme, não cansa. O cão talvez estivesse cansado, mas estava ali, comigo. Decidiu parar, sentou-se a meu lado e esperou. O que esperava? Ora, se a comunicação não tivesse sido teorizada, racionalizada, humanizada eu conseguiria responder. Meu ônibus (meu e de todos os que – teoricamente – pagam para andar nele) chegou, eu entrei, o cão andou. Tchau, amigo, e obrigada: você (sim, você, embora a linguagem humana preferisse outro pronome pra você) que está no “por aí” da vida me ensinou o quão valioso é estar no “por aqui” das pessoas.

8 Abril 2011 2 Comentários

Inevitável

“Inevitável” é uma palavra curiosa. Acabei de pensar sobre ela e, talvez por isso, senti como se tivesse acabado de descobri-la. Existe algo que seja de fato inevitável? O acaso, a fatalidade, o incidente?

Há quem acredite que para tudo tem remédio. Machado de Assis ironizou a hipocondria em Memórias Póstumas de Brás Cubas por meio do emplasto que remediaria todos os males da Humanidade. Mas acabei de citar isso e me veio à mente o verso na voz do Renato Russo, dizendo que “a humanidade é desumana”. Pois bem: como pretensa jornalista (ou estudante de, como fique melhor), humana de nascença e brasileira, também de nascença, é inevitável não comentar o massacre no bairro do Realengo, no Rio de Janeiro.

O caso mexeu comigo de modo particular, porque no último ano do colégio, eu e meus colegas, alunos e professores, decidimos apresentar uma peça de teatro para encerrar nossa passagem pela escola (passagem que, não por acaso, nos formou). Fizemos um remake do filme “Bang, Bang! Você Morreu!”, de 2002. No roteiro, abordamos o bullying de uma forma realista, por um motivo muito simples: éramos nós, estudantes do colegial, falando sobre bullying no colegial. Não haveria como ser mais realista, a meu ver. A peça – os ensaios, o texto que criamos, minhas falas e as falas dos colegas – dormia em minha memória, e ontem pela manhã, subitamente – como um tiro – despertou.

Em “Bang Bang! Você Morreu!” eu era Lívia, melhor amiga de Caio, o estudante que assassinou os colegas na escola, um por um. Colegas, estes, cujas almas voltavam para assombrá-lo, com a missão de não deixá-lo esquecer o que havia feito. E Lívia não compreendia por que ela, justamente ela, a melhor amiga. “Por que eu, Caio?” – uma das falas que mais repetíamos, várias vezes em uníssono. Por que eles, Wellington Menezes de Oliveira? Eles, elas, nós, todos. Não chegavam nem perto da alcunha de melhor amigo, e mesmo assim tiveram a vida arrancada pelo assassino, que teria sofrido bullying anos atrás, quando aluno da escola onde tirou a vida daquelas crianças. Inevitável?

O massacre do Realengo não é – embora tenha se tornado em questão de segundos – um palanque, assim como Wellington não é o montante de adjetivos que se tenta usar para qualificá-lo, já que não há adjetivo em que caiba… o ser humano. O que é o ser humano? Não se sabe. Nenhum psicólogo, médico, guru espiritual consegue dizer, porque nenhum ser humano consegue se adjetivar. Ser humano é ser o quê? O verbo “ser” precede a palavra “humano”, mas não sei se ela é adjetivo ou substantivo. E não venham detentores da Gramática tentar me explicar: a questão é exatamente essa, inexplicável. Inevitável.

10 Fevereiro 2011 Comentários

Díspare, dispare (a ler)

Decidi escrever de novo. Mas, quando escrevo, não é por vontade própria minha, e sim da própria escrita.

Estive pensando sobre ter gostos que diferem muito entre si. Eu tenho. Ou eles me têm, deve ser mais para isso do que para aquilo. Vou encher o restante deste texto com exemplos pessoais. Caso quem me lê não esteja disposto a me ler exemplificada, qualquer dia escrevo algo menos pessoal e o reconquisto.

O fato é que tenho interesses que “a maioria” consideraria múltiplos demais para fazerem sentido. Quando criança, fui fotografada rabiscando um pedaço de papel com uma caneta. Ali estava uma garotinha meiga, de cabelo castanho-claro, com franjinha reta e cachinhos, diante da imensidão de uns rabiscos à caneta. Toda vez que meus pais, tios ou avós olham para a foto, dizem: “desde pequena, já queria ser escritora”. Não sei exatamente onde está o sentido da ligação entre uma coisa e outra (poderia ser desenhista, ué), mas… é verdade.

Minha mãe conta que, também quando criança, certa vez rabisquei todos os papeis que estavam sobre a mesa do chefe dela, jornalista. E que, em vez de uma bronca, ela ouviu uma frase: “vai ser jornalista”. E também é verdade. Estou estudando para isso, embora ache que, por tudo que tenho visto em teoria e prática, “ser jornalista” é mais um instinto do que qualquer outra coisa que venha dentro de um canudo. “Decida-se”, parte 1.

Aí eu fui crescendo. Quando minha deliciosa rotina era escola-casa-da-vó, antes mesmo de cursar o Primário, eu era a fiel audiência das novelas mexicanas em qualquer horário em que fossem transmitidas. Ficava imitando as atrizes frente ao espelho. Com batom e “roupa de adulto”, que pegava de guardarroupas [hífen é da minha época, estou envelhecendo] alheios. Achava que queria, além de escrever, ser atriz. “Decida-se”, parte 2.

Acrescente a isso mais alguns anos e lá estou, em qualquer lugar da casa de praia dos avós, tentando imitar à mão as páginas de revistas de novela. Eu parecia querer engolir a fonte Times New Roman. Desculpem não conseguir explicar isso direito, mas eu achava o “a” do tipo tão impressionante que tentava desenhar à caneta numa folha sulfite. Imitava tudo da página: o título (“fulano e fulana têm noite de amor”)em um tipo como Arial Black; o que vinha depois dele (na fase adulta descobri que se chama “olho”, que curioso), o que vinha depois-depois (ah, ta, o texto mesmo) e até me arriscava a desenhar as fotos. Tudo com uma régua e uma caneta esferográfica. Minha avó tem isso guardado.

Pouco depois, desisti de copiar, queria um desafio maior. Passei a brincar de “inventar novela”. “Fulano e fulana se beijam” podia ter o nome que eu determinasse. Era fascinante; Colombo deve ter sentido algo parecido. E eles podiam se beijar e em seguida, “romper” (revista de novela adora o termo). Mágico! Inventei várias tramas, com nomes e tudo. Tentava seguir um roteiro. Escrevia o “resumo da semana” baseado no que via nas revistas. Mas depois me cansava e guardava as folhas numa caixa. A história do casal, depois de uma reatar-brigar-reatar-ficar-junto-para-sempre já não tinha mais graça depois do “para sempre”. Cresci um pouco mais e deixei tudo isso lá na caixa, no quartinho onde está até hoje. “Decida-se”, parte 3.

No colégio, felizmente, havia matérias que detestava. Digo felizmente porque… ora, porque é o raciocínio principal deste texto mas não sei explicar, só sei continuar escrevendo. Detestava Matemática. E Arte, que eu me lembre. Era “Educação Artística” (e não ainda minha amada História da Arte) e eu tinha pavor só de pensar em desenhar. Tinha/tenho um traço grotesco e minha coordenação motora nunca foi das melhores, nem das quase-boas (meus companheiros de classe sabem que não consigo conversar e escrever ao mesmo tempo, por exemplo). E não sabia pintar a lápis porque começava num sentido e terminava noutro. A Matemática me embrulhava o estômago. Acho que embrulha e embrulhará, só tive uma pausa no enjôo matemático quando uma professora magnífica no último ano do ensino médio fez valer a pena. Mas é exatamente este o ponto: nas matérias da escola a coisa começou a complicar. Detestar Matemática e amar Português com todas as forças é muito natural, é a velha briga Exatas x Humanas. Mas quando descobri que gostava de Química, fiquei desolada. Achei que fosse só no colégio, e até aí, tudo bem. Mas comecei a fazer cursinho e gostei mais ainda de Química. “Decida-se”, parte 4.

Chega a fase “decida-se” um pouco mais decisiva, permita a redundância. Nos vestibulares, só prestei (nunca sei se é “prestei” ou “prestei para”) Jornalismo. Cheguei a pensar em Letras e fiquei feliz quando descobri que a dúvida é tão comum que uns cinco na minha sala devem cursar Letras também. Preciso explicar aqui que em momento algum “tive dúvida”, e essa é a parte do raciocínio que nem eu entendo. Não tenho dúvidas sobre o que quero. O fato é que quero tudo o que estou dizendo que quero, e as imposições que o homem criou como auto-punição devem ser o motivo central deste texto, que se pergunta a cada caractere qual o problema em não querer uma coisa só.

Com o curso de Jornalismo, vem a sexta parte “decida-se”: a Sociologia. Minhas matérias favoritas eram Sociologia e Teoria da Comunicação, e até entender o parentesco, entristeci um pouco. Essa foi a única parte em que talvez tenha surgido uma duvidazinha. Quis largar tudo e correr para as Ciências Sociais. Depois, fui me acalmando até descobrir que TODAS as matérias do curso de Jornalismo me agradaram tanto até o momento que não tem como largar. Perto disso, comecei a estagiar. Tive a oportunidade de trabalhar com assessoria de imprensa, meu primeiro estágio. Houve momentos em que (se meus ex-eternos chefes assessores estiverem lendo isso, acho que nunca antes havia contado…)gostei tanto que cheguei a pensar: “quando eu crescer, vou ser assessora de imprensa como eles”. Mas quando discutíamos “o outro lado” (que alguns nos irritam quando dizem ERRONEAMENTE que são “os jornalistas”), queria fazer parte dele também. A coisa complicou. “Decida-se”, parte 7.

Meu segundo estágio foi com redes sociais. Descobri uma profissão chamada “Análise de Mídias Sociais”. Eu me casei com ela, ouvi que “tá pegando”, então ela “me pegou”. O casamento tem sido como diz o clichê, mesmo. No começo foi uma maravilha, só queria falar em mídia social. Meu wikivocabulário ganhou palavras. Agora, está numa fase parada, porque o exército dos que não sabem arranjar outra explicação me ensinou a dizer: “estou sem tempo”. Mas estou feliz com o casamento, embora as redes sejam infieis. É relacionamento aberto, mesmo. “Decida-se”, parte 8.

Agora, o ápice. Telejornalismo. O terceiro estágio. Qual a diferença? A diferença é que parece um espelho (que, aliás, é vocabulário “televisivo”). Só eu sei que dizer isso é mais do que suficiente. A diferença é que antes não havia me olhado no espelho. “Decida-se”, parte 9.

Na tevê, uma observação interessante me chamou a atenção para mim mesma (não é redundância, leiam de novo): um colega vive dizendo que eu tenho cara e jeito de psicóloga. Diz que passo confiança, que são meus olhos e meu jeito de conversar e ouvir. O mais interessante é que com frequência pessoas puxam conversa comigo na rua, mas não simplesmente isso. Certa vez, há uns sete anos, estava esperando o ônibus da escola (aumenta o som de “Malandragem”) e uma senhora começou a conversar comigo. Minutos depois me disse que tinha acabado de sacar algo em torno de dez mil reais do banco ao lado e que o dinheiro estava na bolsa dela (não me perguntem por que). Se isso não for uma prova de que devo passar alguma confiança, não sei mais o que é. “Decida-se”, parte 10.

Acho o número dez simpático (o estranho é que acho o “um” antipático), então, vou parar a contagem por aqui. Isso porque ficaria contando eternamente as contradições em que eu mesma me coloco. Mas preciso fazer duas colocações importantes. Duas vontades me acompanharam, acompanham-me e me acompanharão. Seja como queiram chamar: vontades, sonhos, aspirações, objetivos. O fato é que escrever e ser professora simplesmente não têm definição no meu dicionário, no dicionário que criei pra eu me entender (em vão). Quando uma coisa transcende, perde a definição. Mas não perde o referencial, que fique claro. Eu não estou supondo porque é o que acontece comigo, e se estou falando de mim, não haveria motivos para supor. Escrever me transcende, ensinar me reposiciona. Dar aula, ainda que particular, é mais que uma conquista. É aquele desafio que resolve todos os problemas das contradições que coloquei aqui. Eu posso gostar de uma porção de disparidades, porque enquanto puder professá-las, enquanto puder ensinar, estarei livre das amarras. Posso ser professora de tudo que gosto. No momento dou aula particular, de Inglês. E uma vez minha aluna me disse algo que, ela não sabe, mas dá um pouco de sentido a esse texto sem querer. Ela me disse que eu tinha ambições e que, por isso, eu não me limitava a uma atividade só. Segundo ela (uma moça determinada de vinte e sete anos), isso é muito bom. Vá saber. Fico com a dúvida, porque a dúvida, enquanto dúvida, não vai me trair.

Além do que escrevi aqui, tem aquela máxima com a qual me identifico, apesar de preferir as mínimas: “posso não saber do que gosto, mas sei do que eu não gosto”. Pensando melhor… não faz sentido algum! O que não se gosta deve ser conhecido antes do que se gosta. Só assim a gente sabe do que gosta. Mas e se eu souber tanto do que gosto como do que não gosto e gostar de várias coisas? Cheguei onde queria neste texto, mas ainda há muito nesta vida. Voltemos ao texto.

Às vezes não sei preferir, confesso. Mas não sou indecisa: disso tenho certeza. Se você que leu até aqui acha que agora sim vai endoidar de vez, não se preocupe: a contradição sou eu. Se eu fizer sentido deixo de fazer sentido.

Dançar, para mim, é sagrado e segredo, meio revelado. Mas já subi num palco cantando rock’n'roll mais de uma vez. Quando eu canto qualquer ritmo que seja capaz de ritmar minha alma, eu me reconheço de alguma forma. Acompanhe no violão, mas seja paciente se eu não quiser parar. Sim: também já quis viver de música. Mas eu já vivo de música. Pense no verbo “viver” e no substantivo “música”, una-os e entenderá.

“Eu só estou feliz quando chove/ eu só estou feliz quando é complicado”, diz uma música de que gosto muito. Seja qual for nossa maior disparidade, sempre temos uma essência e sempre sabemos qual é. Eu não quero falar da minha, porque nossa essência é a coisa mais pessoal que temos e é daqueles segredos que não podem ser revelados ainda que já tenham sido.

Ficam aqui algumas indagações. Qual o sentido da especialização? Acadêmicos, fiquem onde estão: não estou falando disso. Por que temos que ser um, uma, assim ou assado? Por que não podemos ficar em cima do muro se pudermos avistar o mar de cima dele? Por que temos que “por um ponto” se existem reticências?

Concluo, mas deve ser essa minha maior contradição: JAMAIS querer finalizar. Sou eterna enquanto dure a minha escrita.

31 Dezembro 2010 1 Comentário

Ano (Re)Novo

Ano (Re)Novo

Boa noite!

Gosto de iniciar qualquer escrito com a saudação do tempo-presente em que escrevo. Melhor seria, então, iniciar com “boa madrugada”, já que agora são 2h22 do dia 31 de dezembro, dia que encerrará o ano de 2010. Gosto, também, que em blogs as pessoas escrevam em primeira pessoa, sendo o endereço virtual pessoal. A intertextualidade está me cansando um pouco; qualquer dia retomo deste ponto. Mas é hora de desejar.

Desde que estava na barriga de minha mãe – segundo familiares e ela própria – festejo o réveillon. Digo, quando estava no ventre, decerto celebrava aos pulos ou chutes (risos). Em minha primeira virada de ano, fiquei gaga. Estava na praia, como tradicionalmente celebro o ano novo “desde que me conheço por gente”, como diriam os populares. A queima de fogos me assustou muito, e por isso (ou quem sabe por outra razão?) tive um acesso de gagueira e não consegui pronunciar uma palavra sequer. A pergunta que me faço (porque não me lembro do episódio, é claro) é: se eu tinha apenas um ano, que palavras esperavam que formasse? Enfim, é o que me contam sobre meu passado de pequenina. Não discutamos com o que há testemunhado. Minha família acrescenta que só me curei da gagueira depois que fui benzida. Acho que foi aí – ou antes – que selaram definitivamente minha ligação com o plano espiritual.

Sim, a razão irracional deste post, como se chama isso na pós-modernidade, é falar do “ano novo”. Mas aproveitei para pincelar de relato o que não estou relatando de fato. Os preceitos religiosos figuram ao redor da virada do ano. Já se perguntaram por que? Talvez seja porque o ser humano necessita, ainda que inconscientemente, de demarcar não só seu território, como também seu tempo. Atos comprovam, quando um professor de História desenha no quadro negro uma “linha do tempo” ou até mesmo no ato simplório – nem tanto, se pensarmos “capitalisticamente” – de comprar um relógio. A criação do calendário perfeitamente representa essa necessidade de que falo. Daí, saber que um ano está por findar traz conforto. Se não gostasse tanto de virar páginas, deixar coisas para trás, ou seja, se eu não gostasse tanto do “ano novo” chegaria a considerá-lo hipocrisia humana, de cara! Mas o fato é que gosto. Porque sou humana também. É simples.

No entanto, há alguns anos – não sei precisar, mas creio que tenha sido em 2007 ou um pouco antes – tive contato com algumas teorias sobre a Bruxaria (que é complexa em seus significados dicionarizados e simplíssima em sua prática) e “descobri” a famosa “roda do ano” celta. Falarei pouco porque pouco conheço a respeito. Mas aprendi, principalmente com o livro “Oito Sabás Para Bruxas” de Janet e Stewart Farrar, que existem celebrações fundamentais para as bruxas, ligadas diretamente às manifestações da natureza, como as estações do ano. Existe um sabá mundialmente celebrado sem que se tenha conhecimento do ato de praticá-lo: é o Samhain (pronuncia-se algo próximo de “sauín”), popularmente famoso Halloween. Afora o que já se sabe sobre o Halloween, muitos não sabem que sua data (31 de outubro no hemisfério norte; 1 de maio no hemisfério sul) marca o ano novo celta.

Seja qual for a data em que um novo ciclo se inicie em nossas vidas, o importante a meu ver é que a renovação aconteça sempre que sentirmos necessário. Quando limpamos nossa casa, mudamos móveis de lugar, organizamos nossos pertences ou até mesmo quando tomamos banho, estamos renovando nosso interior. Quando nos lançamos em um desafio, estamos renovando nossas capacidades. Quando reatamos um relacionamento (falo de qualquer relacionamento humano, seja ele de pai para filho ou entre amigos, enamorados, familiares, colegas de trabalho, etc.) estamos renovando nossos laços afetivos; estamos perdoando, e quando rompemos tais laços, também renovamos, já que decidimos sem nos dar conta que isso ou aquilo não faz mais parte de nossa vida. Por outro lado, quando as pontas dos laços se unem novamente, ainda assim estamos renovando, já que as águas passadas, sem redundância, ficaram para trás, e abrimos o coração e nosso mar interior para receber as novas ondas do “ato de reatar” (agora sim, fui redundante). Um novo corte de cabelo (já passei por vários!), um novo modo de se vestir, de se maquiar… tudo isso são renovações (sendo tais, exteriores que modificam o interior). É imprescindível renovar. As boas energias residem harmonicamente no novo. O velho é velho para que o novo exista. Porque o que for eterno, jamais será velho, jamais será novo, o nome já se justifica.

Finalizo, por ora (porque sou eterna enquanto dure a minha escrita), desejando a vocês que, seja qual for a data que marque o reinício, haja renovações em suas vidas. Não se preocupem em se apegar ao(s) passado(s), pois dele(s) jamais conseguiremos nos desapegar (o passado é a raiz que um dia fincamos na terra) e o que for eterno se repetirá constantemente. Por isso, se não nos renovarmos, não teremos a oportunidade de descobrir o que é eterno em nossas vidas. Inovem! Re-iniciem! Re-atem, re-façam revivam! Adentrem outros caminhos: são meus desej0s. 2011 vem aí e, sejam quais forem suas (des)crenças, energia todo mundo sente, mente quem nega isso. Assim sendo, que as melhores energias do Universo estejam com vocês!

Um abraço afetuoso, blessed be!